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sábado, 17 de setembro de 2016

"Ateísmo? Impossível!" por John Blanchard


Em uma pesquisa de opinião, realizada na Inglaterra, em 2001, 38% dos entrevistados declararam que não eram religiosos. Outras pesquisas demonstram que aproximadamente a metade desses “não-religiosos” iria mais além e diria que é ateísta.

Para algumas pessoas, o ateísmo parece algo estimulante e agradável. Afinal de contas, se Deus não existe, não há necessidade de nos inquietarmos a respeito de padrões de comportamento e de moralidade. Somos totalmente livres para “fazer o que desejamos”.

E, o melhor de tudo, quando morrermos, não teremos de responder perguntas desagradáveis ou nos depararmos com a possibilidade de sermos punidos por aquilo que pensamos, falamos ou fizemos. Isso parece maravilhoso!

Mas, com certeza, o mais importante não é calcularmos os benefícios aparentes do ateísmo, e sim perguntarmos: o ateísmo é verdadeiro?

Tenho passado vários anos estudando esta pergunta e cheguei à conclusão de que não é possível que o ateísmo seja verdadeiro. O ateísmo suscita muitos problemas. Pretendo descrever alguns desses problemas.

Realmente imenso

Citando Douglas Adams: “O espaço é imenso, realmente imenso. Você não pode acreditar em quão terrivelmente imenso é o espaço. Quero dizer: você pode imaginar que o espaço é semelhante àquele longo caminho que o leva ao consultório do dentista, mas isso é apenas um amendoim em comparação ao espaço”.

O autor de “O Guia do Viajante da Galáxia” (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy) estava correto. Tente contemplar as estrelas em qualquer noite de céu limpo e você perceberá o que estou dizendo. Se a terra fosse do tamanho de um ponto final neste artigo, a lua estaria distante 1 centímetro e meio; o sol se localizaria a 5,7 metros da terra, e a estrela mais próxima estaria a 1618 quilômetros.

Nós ainda estaríamos a uma distância de 37.619.000 quilômetros da Via Láctea e a 752.369.000 quilômetros da galáxia de Andrômeda. Esse universo terrivelmente imenso faz surgir perguntas inquietantes para o ateísta.

Como tudo veio a existir? Por que o universo é assim? De onde vêm as leis da natureza? Por que existem ordem e planejamento tão admiráveis no universo?

Falar sobre uma “Grande Explosão” não nos leva a lugar algum. De onde surgiu o material que supostamente teria causado a “explosão”? E como essa explosão foi capaz de produzir beleza, ordem e planejamento?

O mistério da vida

A existência da vida é um problema ainda maior para os ateístas. Um famoso erudito declarou que a idéia de a vida ter se originado por acaso é semelhante a obtermos um dicionário completo como resultado da explosão de uma gráfica!

Podemos realmente crer que... era uma vez um tempo remoto em que não havia nada; de repente, “alguma coisa” (uma partícula de poeira?) apareceu e produziu, por si mesma, toda a vida? A complexa “linguagem dos genes” (o código genético) criou-se a si mesma? Sistemas biológicos imensamente complexos, tal como o olho humano, apenas apareceram de alguma maneira? Isso é contar histórias infantis!

O milagre do homem

Os seres humanos são verdadeiramente admiráveis! Organizado em “fila única”, o DNA, em qualquer um de nós, se estenderia até ao sol e retornaria mais do que 100 vezes! Durante a sua vida média, o cérebro humano processa informações suficientes para encher a capacidade de 7.142.857.142.860.000 de disquetes de computador!

Podemos falar, pensar, contar, apreciar a beleza e construir relacionamentos pessoais. Temos o senso do que é correto e do que é errado. Fazemos perguntas tais como: “De onde eu vim? Por que estou aqui? Para onde estou indo?”

Acima de tudo, os seres humanos têm um instinto religioso profundamente arraigado em seu íntimo, um senso de que existe algo (ou alguém) maior do que nós mesmos. Essas coisas não podem ser ditas a respeito de qualquer outra criatura — tente pedir a um gato ou a um cachorro que leia esse artigo! Por que somos tão singulares?

Classe diferente

A resposta dos ateístas para a existência do universo, o mistério da vida e o milagre do ser humano é dizer que tudo isso veio à existência por acidente. Mas isso realmente não faz sentido.

Se nosso cérebro resulta de acidente, isso também ocorre com os nossos pensamentos. Por que devemos acreditar em qualquer coisa que eles nos dizem? Como podemos saber a verdade a respeito de alguma coisa?

Se todos os aspectos da vida resultam de acidente, por que devemos nos importar com nosso comportamento? Por que devemos nos esforçar para sermos decentes, honestos ou gentis? Por que devemos nos preocupar com os doentes, ajudar os necessitados ou consolar os que estão às portas da morte?

Se nós somos apenas filhos do acaso, meros acidentes da evolução, não existe motivo para reivindicarmos que temos mais dignidade do que os porcos, os mosquitos ou os sapos. No entanto, nós realmente temos dignidade! Por quê? O que nos coloca em uma classe diferente?

Criados por Deus

A resposta bíblica para essas perguntas é que o universo maravilhoso em que vivemos foi criado por Deus. Ele também criou o homem “à sua imagem”, distinto de todo o resto da criação, capaz de viver em um relacionamento pessoal com seu Criador.

Esse relacionamento foi arruinado pelo pecado, mas Deus, em sua grande misericórdia, veio ao mundo na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Ele providenciou um meio pelo qual o relacionamento pode ser restaurado.

Muitas pessoas, na História, vieram a Jesus e creram nEle, comprovando assim que Deus restaurou seu relacionamento com elas. Peça a Deus que faça isso por você!

"O amor cristão é humilde" por Jonathan Edwards



Eu gostaria de mostrar o que é humildade. A humildade pode ser definida como sendo o hábito da mente e do coração que corresponde à nossa indignidade e vileza em comparação com Deus, ou o senso de nossa própria insignificância aos olhos de Deus, com a disposição para um comportamento correspondente à humildade. Ela consiste em parte no senso ou estima que temos de nós mesmos; e, em parte, na disposição que temos para um comportamento correspondente a este senso ou estima. E o primeiro elemento na humildade é

1.1. O senso de nossa própria insignificância comparativa. Digo insignificância comparativa porque a humildade é uma graça peculiar aos seres que são gloriosos e excelentes em todos os seus muitos aspectos. Assim os santos e anjos, no céu, suplantam em humildade; e esta é peculiar a eles e adequada neles, ainda que sejam seres puros, impolutos e gloriosos, perfeitos em santidade e excelentes na mente e força. Mas, ainda que sejam assim gloriosos, contudo possuem uma insignificância comparativa diante de Deus, e disto são sensíveis; pois lemos que, aquele diante de quem devemos nos humilhar, contempla as coisas que estão no céu (Sl 113.6). Assim o homem Jesus Cristo, que é o mais excelente e glorioso de todas as criaturas, no entanto é manso e humilde de coração, e em humildade suplanta a todos os demais seres. A humildade é uma das excelências de Cristo, porque ele é não somente Deus, mas também homem, e, como homem, ele era humilde; pois humildade não é, e não pode ser, um atributo da natureza divina. A natureza de Deus é de fato infinitamente oposta ao orgulho, e contudo a humildade não pode ser, propriamente, um predicado dele; pois, se o fosse, isto implicaria imperfeição, o que é impossível em Deus. Deus, que é infinito em excelência e glória, e infinitamente acima de todas as coisas, não pode ter em si qualquer consciência de insignificância, e portanto não pode ser humilde. Humildade, porém, é uma excelência peculiar a todos os seres inteligentes criados, pois todos eles são infinitamente pequenos e insignificantes diante de Deus, e a maioria deles é de alguma maneira insignificante e inferior em comparação com alguns de seus semelhantes. Humildade implica compromisso com aquela norma do apóstolo (Rm 12.3), a saber, que não devemos pensar de nós mesmos mais do que convém pensarmos, mas que pensemos de nós mesmos sobriamente, segundo Deus trata a cada um, na medida não só da fé, mas também das demais coisas. E esta humildade, como uma virtude nos homens, implica o senso de sua própria insignificância comparativa, tanto quando compara com Deus, como quando comparada com seus semelhantes.



Primeiro, a humildade, primária e principalmente, consiste no senso de nossa insignificância quando comparados com Deus, ou o senso da infinita distância que há entre Deus e nós. Somos criaturas pequenas, desprezíveis, sim, vermes no pó, e devemos sentir que não passamos de nulidade, menos que nada, em comparação com a Majestade do céu e da terra. Abraão expressa tal senso de sua nulidade quando disse: “Eis que me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18.27). Não existe humildade sem alguma medida deste espírito; porque, seja qual for a medida do senso que tivermos de nossa insignificância, quando comparados com alguns de nossos semelhantes, não somos realmente humildes, a menos que tenhamos o senso de nossa nulidade quando comparados com Deus. Há pessoas que cultivam o pensamento de inferioridade, acerca de si mesmas, quando se comparam com outras pessoas, à vista da insignificância de suas circunstâncias, ou de um temperamento melancólico e de desalento que lhes é natural, ou de alguma outra causa, enquanto nada sabem da infinita distância que existe entre elas e Deus; e, muito embora estejam prontas a olhar para si como sendo humildes, contudo não possuem a verdadeira humildade. Aquilo que acima de todas as demais coisas nos convém saber de nós mesmos é o que somos em comparação com Deus, que é nosso Criador e aquele em quem vivemos, nos movemos e temos nosso ser, e que é infinitamente perfeito em todas as coisas. E caso ignoremos nossa insignificância quando comparados com ele, então o que é mais essencial para nós, o que é indispensável à genuína humildade, está ausente. Mas, onde este fato é realmente sentido, aí a humildade se sobressai.

Segundo, o senso de nossa insignificância quando comparados com muitos de nossos semelhantes. Pois o homem é não só uma criatura insignificante em comparação a Deus, mas ele é mui insignificante quando comparado com as multidões de criaturas de uma posição superior no universo; e a maioria dos homens é insignificante em comparação a muitos de seus semelhantes. E quando o senso desta insignificância comparativa se origina de um justo senso de nossa insignificância como Deus a vê, então ela é da natureza da genuína humildade. Aquele que tem um correto senso e estima de si mesmo, em comparação a Deus, provavelmente terá seus olhos abertos para contemplar-se corretamente em todos os aspectos. Vendo realmente como ele é com respeito ao primeiro e mais elevado de todos os seres, isso tenderá grandemente a ajudá-lo a ter uma justa apreensão do lugar que ele ocupa entre as criaturas. E aquele que não conhece corretamente o primeiro e mais elevado dos seres, que é a fonte e manancial de todos os demais seres, realmente não pode conhecer tudo corretamente; mas, na medida em que vem ao conhecimento de Deus, então está preparado para e é guiado ao conhecimento das demais coisas, e, então, de si mesmo, quando relacionado com os demais, e quando situado entre eles.

Este conceito de humildade deve aplicar-se aos homens considerados como seres perfeitos, e teria sido verdadeiro de nossa raça, se nossos primeiros pais não houvessem caído e assim envolvido sua posteridade em pecado. Mas a humildade nos homens caídos implica o senso dez vezes maior de insignificância, quer diante de Deus, quer diante dos homens. A insignificância natural do homem consiste em estar ele infinitamente abaixo de Deus em perfeição natural, e em estar Deus infinitamente acima dele em grandeza, poder, sabedoria, majestade etc. Uma pessoa realmente humilde é sensível da pequena extensão de seu próprio conhecimento e da grande extensão de sua ignorância, e da pequena extensão de seu entendimento, quando comparado com o entendimento de Deus. Tal pessoa é sensível de sua debilidade, de quão pequena é sua força e de quão pequena é ela em sua capacidade de agir. Ela é sensível de sua natural distância de Deus; de sua dependência dele; e de que é pelo poder de Deus que ela é sustentada e provida, e que necessita da sabedoria de Deus para ser conduzida e guiada, e de seu poder para capacitá-la a fazer o que deve por e para ele. Ela é sensível de sua sujeição a Deus, e que a grandeza dele consiste propriamente em sua autoridade, de que ele é o soberano Senhor e Rei sobre todos; e que ela se dispõe a sujeitar-se a essa autoridade, quando sente que lhe convém submeter-se à vontade divina e em tudo sujeitar-se à autoridade de Deus. O homem teve esta sorte de pequenez comparativa antes da queda. Então, ele era infinitamente pequeno e insignificante em comparação a Deus; mas sua insignificância natural se tornou muito maior a partir da queda, pois a ruína moral de sua natureza reduziu grandemente suas faculdades naturais, ainda que não as extinguisse.

A pessoa realmente humilde, desde a queda, é também sensível de sua insignificância e vileza morais. Isto consiste em sua pecaminosidade. Sua insignificância natural é sua pequenez como criatura; sua pequenez moral é sua vileza e imundície, como pecador. O homem antes da queda era infinitamente distante de Deus em suas qualidades ou atributos naturais; o homem caído está infinitamente distante dele também como pecador, e, por isso, imundo. E uma pessoa realmente humilde em alguma medida é sensível de sua insignificância comparativa neste aspecto: ela percebe quão excessivamente imunda é diante de um Deus infinitamente santo, a cujos olhos os céus não são limpos. Ela percebe o quanto Deus é puro e quão imunda e abominável é ela diante dele. Isaías teve esse senso de sua insignificância quando contemplou a glória de Deus e clamou: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6.5). O humilde senso de nossa insignificância, neste aspecto, implica aversão de nossa própria miséria, tal como a que levou Jó a exclamar: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem. Por isso, me abomino e me arrependo no pé e na cinza” (Jó 42.5, 6). Implica ainda aquela contrição e quebrantamento de coração de que fala Davi, quando diz: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17). E também o que Isaías contemplou quando declarou: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15). E tanto o senso de nossa pequenez pessoal quanto o senso de nossa vileza moral diante de Deus, estão implícitos naquela pobreza de espírito de que fala o Salvador, quando afirma: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino do céu” (Mt 5.3).

Além deste senso de nossa própria insignificância e indignidade, que está implícito na humildade, ser muito necessário para conhecermos a Deus, e termos o senso de sua grandeza, sem o qual não podemos conhecer a nós mesmos, precisamos também ter o senso correto de sua excelência e amabilidade. Os demônios e espíritos condenados veem uma grande porção da grandeza de Deus, de sua sabedoria, onipotência etc. Deus os torna sensíveis dessa grandeza, pela qual veem em seus modos de tratá-los e sentem em seus próprios sofrimentos. Por mais indispostos sejam eles em reconhecê-lo, Deus os faz saber o quanto ele está acima deles hoje, e saberão e o sentirão ainda mais, durante e após o julgamento. Eles, porém, não possuem humildade, nem jamais a possuirão, porque, ainda que vendo e sentindo a grandeza de Deus, contudo nada veem e nada sentem de sua amabilidade. E sem isto não pode haver real humildade, pois ela não pode existir a menos que a criatura sinta sua distância de Deus, não só com respeito à sua grandeza, mas também quanto à sua amabilidade. Os anjos e os espíritos redimidos, no céu, veem ambas estas coisas; não só quão maior é Deus do que eles, mas também quão mais amável é ele; de modo que, ainda quando não tenham contaminação e mácula absolutas, como possuem os homens caídos, contudo, em comparação a Deus, lemos que “nem os céus são puros a seus olhos” (Jó 15.15), e “aos seus anjos atribui imperfeições” (Jó 4.18). A partir desse senso de sua insignificância comparativa, as pessoas se tornam sensíveis de quão indignas são da misericórdia ou da observação graciosa de Deus. Jacó expressou esse senso quando disse: “Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo” (Gn 32.10), e Davi, quando exclamou: “Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?” (2Sm 7.18). E aquele que realmente se humilha diante de Deus também possui esse senso.

Trecho do livro: "Caridade e seus frutos", por Jonathan Edwards

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

“Conversando Sobre Sexualidade – O Temor e o Fascínio” por Tim Challies


Todo pai tem a responsabilidade de eventualmente ter “aquela conversa” com seus filhos. Você sabe de qual conversa estou falando – aquela que finalmente diz de onde vêm os bebês. Acredito que poucos pais anseiem por essa conversa ou se sintam confiantes para tê-la. Porém, ainda que venhamos a tropeçar, nós e nossos filhos sobreviveremos.

Eu passei um bom tempo essa semana preparando algumas mensagens sobre o design divino para seres humanos e sua sexualidade. Isto requereu um aprofundamento nas diferenças entre uma compreensão bíblica da sexualidade e aquela que é imposta pela cultura ao nosso redor – um entendimento que requer a destruição daquilo que as pessoas sempre creram e a criação de todos os novos tipos de categorias. (Veja, por exemplo, Os “novos pássaros e novas abelhas”-  “gêneros”). Quanto mais eu leio sobre o caos geral que envolve este assunto atualmente, mais eu fico convencido da necessidade de encarar “aquela conversa” não apenas como uma responsabilidade dos pais, mas como um privilégio. “Aquela conversa” não é só uma oportunidade de transmitir informação, mas uma oportunidade de transmitir maravilhas.

Apenas pare um momento para pensar sobre o sistema de reprodução humano, o assunto daquela infame conversa. Vamos considerar somente um aspecto. Você já pensou no porquê nós usamos a palavra “sistema” para discutir sobre reprodução? Quando eu estava escrevendo um livro sobre fertilidade, eu tive que pesquisar a definição de sistema e cheguei a isto: “Um sistema é uma série de coisas ou partes conectadas formando uma rede complexa”. Um sistema geralmente parece simples exteriormente, mas na verdade é bem complexo. A complexidade está escondida por causa do funcionamento regular da rede. Dessa forma, a reprodução humana envolve um sistema – um sistema maravilhosamente simples e complexo. A maravilha disto está no fato de um sistema reprodutivo masculino independente e em perfeita função combinar com um sistema reprodutivo feminino independente e em perfeita função para se tornar um sistema muito maior. Não apenas isso, mas quando combinados eles criam um sistema completamente novo e uma pessoa completamente nova. Não há nada como isso! É demais para nossa mente e é praticamente miraculoso. Isto é fantástico – envolve temor e deslumbramento.

Agora pense no senso comum predominante que compreende estes dois sistemas vieram da evolução, através da combinação acidental de tempo e sorte. Não, sinceramente. As pessoas negam o design e aceitam a sorte. Pense no resultado, pois se tudo veio a ser assim sem a existência de um designer, não há nenhum significado ou importância em nada disto. Certamente, não há nenhuma responsabilidade moral atrelada a este fato– tais sistemas podem ser usados da forma que as pessoas desejarem. Na verdade, nós não podemos nem insistir que o que parece óbvio é, sem dúvidas, óbvio. Não podemos nem insistir que há um significado nas diferenças entre sexos. Pense na desesperança e insignificância, então contraste com o puro encanto de admitir e admirar que Deus assim o fez.

Há muitos anos atrás, Elisabeth Elliot escreveu estas palavras:

Através dos milênios da história humana, até as duas últimas décadas ou próximo disso, as pessoas tinham por certo que as diferenças entre homens e mulheres eram tão óbvias que não era necessário qualquer comentário. Elas aceitavam o modo que as coisas eram. No entanto, nossas ideias simples têm sido atacadas e confundidas, nós perdemos nosso referencial em uma neblina de retórica sobre alguma coisa chamada igualdade, de maneira que eu me encontro numa desconfortável posição de ter que insistir com pessoas instruídas sobre algo que já foi perfeitamente óbvio ao mais simples camponês.

Não obstante, ela não estivesse escrevendo sobre a confusão sexual do século 21, ela poderia ter feito isso. Aquilo que outrora era tão simples tornou-se tão difícil. O que antes era tão óbvio tornou-se tão complicado. O que algum dia foi uma fonte de fascínio tornou-se uma fonte de confusão e incerteza. E no meio desta loucura e insegurança, nós temos a alegria de celebrar a bondade de Deus e seu maravilhoso design. Nós podemos celebrar o que Deus fez e o que Ele criou.

“Aquela conversa” é um momento de ajudar seus filhos a contemplar o bom design de Deus e ver as evidências de Seu trabalho através disto. Sua tarefa não é simplesmente transmitir os fatos necessários, mas transmitir a fascinação apropriada. Sua tarefa é dizer “Olhe o que Deus fez! Veja o que Ele criou!”

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Sola Scriptura" por Michael Kruger


Vivemos em um mundo cheio de reivindicações de verdades concorrentes. Todos os dias, somos bombardeados com declarações de que uma coisa é verdadeira e a outra, falsa. Dizem-nos no que acreditar e no que não acreditar. Pedem-nos que nos comportemos de um jeito ao invés de outro. Em sua coluna mensal “O que eu sei com certeza”, Oprah Winfrey nos diz sobre como lidar com as nossas vidas e relacionamentos. A página editorial do New York Times nos diz regularmente qual abordagem devemos usar nas grandes questões morais, jurídicas ou de políticas públicas de nossos dias. Richard Dawkins, o ateu e evolucionista britânico, nos diz como pensar a respeito de nossas origens históricas e nosso lugar no universo.

Como filtraremos todas essas alegações? Como as pessoas sabem o que pensar sobre relacionamentos, moralidade, Deus, origem do universo e muitas outras questões importantes? Para responder a essas perguntas, as pessoas precisam de algum tipo de norma, padrão ou critério ao qual possam recorrer. Em outras palavras, precisamos de uma autoridade máxima. É claro que todo mundo tem algum tipo de norma suprema à qual recorrer, quer estejam cientes ou não do que essa norma venha a ser. Algumas pessoas recorrem à razão e à lógica para julgar essas alegações de verdade concorrentes. Outras recorrem ao senso de experiência. Outros recorrem a si mesmos e ao seu próprio senso subjetivo das coisas. Embora haja alguma verdade em cada uma dessas abordagens, os cristãos têm historicamente rejeitado todas elas como o padrão definitivo para o conhecimento. Em vez disso, o povo de Deus tem afirmado universalmente que há apenas uma coisa que pode legitimamente funcionar como o padrão supremo: a Palavra de Deus. Não pode haver nenhuma autoridade maior que o próprio Deus.

É claro que não somos a primeira geração de pessoas a enfrentar o desafio das reivindicações de verdades concorrentes. Na verdade, Adão e Eva enfrentaram um dilema no início. Deus havia dito claramente a eles: “Certamente morrerás”, se comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17). Por outro lado, a Serpente disse o oposto a eles: “É certo que não morrereis!” (3:4). Como Adão e Eva deveriam ter julgado essas alegações discordantes? Pelo empirismo? Pelo racionalismo? Através daquilo que parecia certo para eles? Não, havia apenas um padrão ao qual eles deveriam ter recorrido para tomar essa decisão: a palavra que Deus havia falado a eles. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Em vez de olhar para a revelação de Deus, Eva decidiu investigar ainda mais as coisas por si mesma: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos... tomou-lhe do fruto e comeu” (3:6). Não se engane, a queda não foi apenas uma questão de Adão e Eva terem comido o fruto. Na sua essência, a queda tratou-se de o povo de Deus ter rejeitado a Palavra de Deus como o padrão máximo para toda a vida.

Mas se a Palavra de Deus é o padrão máximo para toda a vida, a próxima pergunta é crucial: aonde iremos para conseguir a Palavra de Deus? Onde ela pode ser encontrada? Esta questão, é claro, nos leva a um dos debates centrais da Reforma Protestante. Ao mesmo tempo que as autoridades da Igreja Católica Romana concordavam que a Palavra de Deus era o padrão máximo para toda a vida e doutrina, eles acreditavam que essa palavra podia ser encontrada em locais fora das Escrituras. Roma reivindicou uma estrutura de autoridade de três partes, que incluía a Escritura, a tradição e o Magistério. O componente principal desta estrutura de autoridade era o próprio Magistério, que é o magistério oficial da Igreja Católica Romana, manifestado principalmente no papa. Porque o papa era considerado o sucessor do apóstolo Pedro, seus pronunciamentos oficiais (ex cathedra) eram considerados como as palavras do próprio Deus.

Foi neste ponto que os Reformadores mantiveram-se firmes. Apesar de reconhecerem que Deus havia entregado sua Palavra ao seu povo de várias maneiras antes da vinda de Cristo (Hebreus 1:1), eles argumentaram que não devíamos mais aguardar a revelação contínua, agora que Deus havia falado finalmente através do seu Filho (v. 2). A Escritura é clara quanto ao dom apostólico ter sido projetado para executar uma tarefa única e histórico-redentiva: estabelecer as bases da igreja (Efésios 2:20). A atividade de estabelecimento da fundação realizada pelos Apóstolos consistia principalmente em dar à igreja um depósito de ensino autorizado que testemunhasse a grande obra redentora de Cristo. Assim, os escritos do Novo Testamento, que são a personificação permanente do ensino apostólico, devem ser vistos como a última parcela da revelação de Deus para o seu povo. Esses escritos, juntamente com o Antigo Testamento, são os únicos que são corretamente considerados a Palavra de Deus.

Esta convicção de sola Scriptura - somente as Escrituras são a Palavra de Deus e, portanto, a única regra infalível para a vida e doutrina - fornecia o combustível necessário para inflamar a Reforma. Na verdade, foi considerada como a “causa formal” da Reforma (considerando que sola fide, ou “somente a fé”, foi considerada como a “causa material”). Os pontos de vista desta doutrina são personificados no famoso discurso de Martinho Lutero na Dieta de Worms (1521), depois que ele foi convidado a retratar os seus ensinamentos:

A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência...Que Deus me ajude. Amém!

Para Lutero, as Escrituras, e somente as Escrituras, eram o árbitro máximo do que devemos acreditar.

Claro que, como muitas convicções cristãs fundamentais, a doutrina da Sola Scriptura tem sido mal-entendida e mal-aplicada. Infelizmente, alguns têm usado sola Scriptura como justificativa para um tipo de individualismo “eu, Deus e a Bíblia”, onde a igreja não tem nenhuma autoridade real, e a história da igreja não é considerada ao interpretar e aplicar a Escritura. Assim sendo, muitas igrejas hoje são quase “ahistóricas” - separadas inteiramente das ricas tradições, credos e confissões da igreja. Eles entendem erroneamente que sola Scriptura significa que a Bíblia é a única autoridade em vez de compreender que isso significa que a Bíblia é a única autoridade infalível. Ironicamente, tal abordagem individualista na verdade enfraquece a própria doutrina que a sola Scriptura pretende proteger. Ao enfatizar a autonomia do crente, fica-se apenas com conclusões particulares, subjetivas sobre o que a Bíblia quer dizer. Não é tanto a autoridade das Escrituras que é valorizada, mas a autoridade do indivíduo.

Os Reformadores não teriam reconhecido tal distorção como a doutrina da sola Scriptura em que criam. Pelo contrário, eles estavam bastante dispostos ??a confiar nos pais da igreja, nos conselhos da igreja e nos credos e confissões da igreja. Tal embasamento histórico foi encarado não apenas como um meio para manter a ortodoxia, mas também como um meio para manter a humildade. Ao contrário da percepção popular, os Reformadores não se viam como se estivessem trazendo algo novo. Em vez disso, eles entendiam que estavam recuperando algo muito antigo - algo que a igreja tinha acreditado inicialmente, mas que depois havia se torcido e distorcido. Os Reformadores não eram inovadores, mas escavadores.

Existem outros extremos contra os quais a doutrina da sola Scriptura nos protege. Embora queiramos evitar a postura individualista e “ahistórica” de muitas igrejas hoje, a sola Scriptura também nos protege de elevarmos credos e confissões ou outros documentos humanos (ou ideias) ao nível das Escrituras. Devemos estar sempre atentos para não cometermos o mesmo erro de Roma, que abraçou o que poderíamos chamar de “tradicionalismo”, que tenta vincular as consciências dos cristãos a áreas que a Bíblia não vincula. Nesse sentido, a sola Scriptura é uma guardiã da liberdade cristã. Mas o maior perigo que enfrentamos quando tratamos da sola Scriptura é entendê-la de forma errada. O maior perigo é esquecê-la. Somos propensos a pensar nessa doutrina puramente em termos de debates do século XVI - apenas um vestígio das antigas batalhas entre católicos e protestantes, e irrelevantes para os dias de hoje. Mas, nos dias de hoje, a igreja protestante precisa dessa doutrina mais do que nunca. As lições da Reforma têm sido esquecidas em sua maioria e a igreja, mais uma vez, começou a confiar em autoridades supremas fora das Escrituras.

A fim de levar a igreja de volta à sola Scriptura, temos de perceber que não podemos fazer isso apenas através do ensino da doutrina em si (embora devamos fazer isso). Antes, a principal maneira para levar a igreja de volta é, de fato, pregando as Escrituras. Somente a Palavra de Deus tem o poder de transformar e reformar nossas igrejas. Portanto, não devemos apenas falar sobre a sola Scriptura, mas devemos demonstrá-la. E quando assim o fizermos, devemos pregar toda a Palavra de Deus - sem escolher as partes que preferimos ou pensar no que nossas congregações querem ouvir. Devemos pregar apenas a Palavra (sola Scriptura), e devemos pregar toda a Palavra (tota Scriptura). As duas doutrinas andam lado a lado. Quando elas são unidas, no poder do Espírito Santo, podemos ter a esperança de uma nova reforma.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

"Sola Gratia" por Guy Prentiss Waters


“Maravilhosa Graça! Quão doce o som que salvou um miserável como eu!”; “Maravilhosa graça do nosso amado Senhor, a graça que excede o nosso pecado e a nossa culpa”. “Maravilhosa graça de Jesus, maior do que todos os meus pecados, como a minha língua deveria descrevê-lo, por onde deveria começar o seu louvor?”.

Os cristãos adoram cantar sobre a graça salvadora de Deus – e com razão. João nos diz que de Jesus “todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). Muitas das cartas do Novo Testamento começam e terminam com os escritores expressando seu desejo de que a graça de Jesus estivesse com o seu povo. As últimas palavras da Bíblia são: “A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém” (Apocalipse 22:21).

Os reformadores entenderam a importância da graça de Deus para o ensino bíblico sobre a salvação. De fato, um dos lemas que vieram a definir o ensino da Reforma era sola gratia, que é o latim para “somente pela graça”. Os cristãos são salvos somente pela graça de Deus.

Entre os protestantes, existe uma conhecida incompreensão e uma distorção do ensino da Igreja Católica Romana sobre a graça. Às vezes é dito: “Roma ensina que somos salvos pelas obras, mas os protestantes ensinam que somos salvos pela graça”. Esta declaração, mesmo sendo comum, é uma calúnia contra a Igreja Católica Romana. Roma não ensina que alguém é salvo pelas obras à parte da graça de Deus. Ela, de fato, ensina que uma pessoa é salva pela graça de Deus.

A que, então, Roma objetou no ensino dos reformadores? Onde está a linha que diferencia Roma da Reforma? Encontra-se em uma única palavra – sola (“somente”). Os reformadores sustentavam que o pecador é salvo pela graça de Deus, o seu favor imerecido, somente. Essa doutrina significa que nada que o pecador fizer pode trazer-lhe o mérito para obter a graça de Deus, e que o pecador não coopera com Deus, a fim de merecer a sua salvação. A salvação, do começo ao fim, é o dom soberano de Deus para os indignos e não merecedores. Conforme Paulo escreveu aos cristãos de Corinto que estavam inclinados a vangloriar-se: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1 Coríntios. 4:7). Ninguém pode estar diante de Deus e dizer: “Olhe para mim e veja o que eu fiz!” Deus não é devedor de ninguém, nem mesmo em matéria de salvação (Romanos 11:35).

Uma passagem da Escritura na qual a doutrina da salvação somente pela graça brilha é Efésios 2:1-10. Paulo escreveu aos Efésios, depois de ter ministrado entre eles por cerca de três anos (Atos 20:31). Está claro a partir do livro de Atos dos Apóstolos que Paulo dedicou-se profundamente a pregar e ensinar a Palavra de Deus para eles (19:8-10, 20:20-21).

A carta aos Efésios nos dá um vislumbre do banquete de ensino que Paulo havia colocado diante daquela igreja. No primeiro capítulo, Paulo leva-nos para os “lugares celestiais” (1:3). Ele nos mostra o plano do Pai para salvar os pecadores através da obra de seu Filho, uma obra que é aplicada e garantida pelo Espírito. Este plano é um plano generoso – o Pai “nos abençoou em Cristo com todas as bênçãos espirituais” (v. 3). Acima de tudo, Paulo enfatiza como esse plano de redenção redunda em louvor da gloriosa graça de Deus (vv. 6, 12, 14).

Depois de uma pausa para agradecer a Deus e interceder pelos Efésios, Paulo aplica as realidades celestiais de 1:3-14 às nossas vidas cristãs individuais em 2:1-10. Ele destaca duas vezes o fato de que “pela graça sois salvos” (2:5, 8). Como é a graça de Deus evidente na salvação? Nós vemos a graça de Deus em evidência, Paulo diz, quando Deus faz com que o morto viva em Cristo. Para apreciar plenamente a graça de Deus, vamos considerar a partir de Efésios 2:1-10 o que significa estar “morto” e o que significa estar “vivo”.

Quem são os “mortos”? Os Efésios estão incluídos. (“Vocês estavam mortos em... delitos e pecados...”, v.1). Inclui Paulo e seus companheiros judeus. (“Nós todos vivíamos nas paixões da nossa carne”, v. 3). De fato, inclui todo homem, mulher e criança em Adão. (“[Nós] éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade”, v.3). A palavra “mortos” inclui pessoas como você e eu.

O que significa estar "morto"? Paulo aponta para três coisas nesta passagem. Primeiramente, isso significa estar sob condenação. Antes de Cristo, estávamos “mortos nos delitos e pecados nos quais [nós] uma vez andávamos”. Deus disse a Adão em Gênesis 2, que a morte é a penalidade para o pecado. Quando violamos a lei de Deus, nós somos culpados perante este Deus santo, e responderemos perante a sua justiça. Em segundo lugar, estar morto significa que estávamos debaixo do jugo. Servíamos a três mestres: o mundo (“seguir o curso deste mundo”, 2:2), a carne (“todos nós vivíamos segundo as paixões da nossa carne, realizando os desejos do corpo e da mente”, 2:3), e o Diabo (“seguindo o príncipe do poder do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência”, 2:2). Em terceiro lugar, estar morto significa que estávamos sob a ira. Nós “éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade” (2:3). Estávamos justamente sujeitos ao descontentamento santo de Deus por causa do nosso pecado. Éramos assim “por natureza” - em outras palavras, nascemos nessa condição.

Muitos não aceitam esse ensinamento. Fora da igreja, muitos assumem que as pessoas são basicamente boas. Elas tendem a acreditar, pelo menos implicitamente, que se dermos às pessoas uma educação adequada, os exemplos ou leis, então eles vão seguir o caminho certo. Leis justas, exemplos nobres e educação adequada são inestimáveis, mas são impotentes para mudar um coração comprometido com sua rebelião contra Deus. Dentro da igreja, muitos já disseram e ainda dizem que as pessoas estão doentes, e até mesmo desesperadamente doentes. No entanto, ainda diz-se a esses doentes que eles têm os recursos necessários para responder e cooperar com a graça de Deus. Mas Paulo não diz que estamos doentes. Ele diz que, longe de Cristo, nós estamos mortos. Espiritualmente falando, somos cadáveres no chão, sem Jesus. Não podemos nos aproximar de Deus, assim como um cadáver não pode reunir forças para sair de seu túmulo. Assim é o quão ruim estamos quando estamos longe de Cristo.

Felizmente, Paulo não termina por aí. Começando no versículo 4, Paulo se volta de nós para Deus, do mal que fizemos para o bem que Deus está fazendo em Cristo. Ele destaca três coisas sobre a graça de Deus no resto desta passagem:

Primeiro, ele nos aponta para a obra de Deus nos versículos 5-6: “Deus nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos – e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar com ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e o fez assentar-se à sua direita (1:18-20), e ele nos fez algo incrível em nossa união com Cristo. Deus, Paulo disse, fez os mortos viverem. Isso é o que evoca a exclamação de Paulo: “Pela graça sois salvos” (2:5).

Em segundo lugar, Paulo nos aponta para a motivação de Deus. Por que Deus fez o morto reviver? Não foi por causa de nossas obras, Paulo diz no versículo 9, nem as obras que fizemos antes de nos tornarmos cristãos, nem as obras que temos feito depois que nos tornamos cristãos. Caso contrário, poderíamos ter motivo para “nos gloriar” (v. 9). Em vez disso, Paulo diz, Deus nos deu vida por causa de sua “misericórdia”, de seu “grande amor com que nos amou” (v. 4). Paulo sai do seu caminho para incutir em nós que o próprio amor e a misericórdia de Deus são a fonte da nossa salvação.

Em terceiro lugar, Paulo nos aponta para o propósito de Deus. Com que propósito Deus fez o morto reviver? Paulo diz no versículo 7, foi para que possamos colocar em exposição, tanto agora como na eternidade, as “riquezas imensuráveis ??da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus”. Como podemos fazer isso? Através da exposição em nossas vidas da obra prima de nosso Criador e Redentor - fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (v. 10).

Nós somos salvos, então, sola gratia – somente pela graça de Deus. Longe de levar-nos a abraçar uma vida de libertinagem e imprudência moral, a graça de Deus no evangelho nos leva a buscarmos uma vida de consagração e santidade. Por que isso acontece? O grande compositor de hinos, Isaac Watts, capturou bem o ponto de Paulo quando escreveu em seu hino “Quando eu vejo a maravilhosa cruz”: “Se toda a criação me pertencesse, ainda assim seria um presente muito pequeno, se comparado ao amor tão incrível, tão divino, que exigiria a minha alma, a minha vida, o meu tudo”. Pense nisso da próxima vez que cantar sobre a graça de Deus.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"O QUE NOS RESERVA O FUTURO POLÍTICO PÓS-PT?" por Franklin Ferreira



Ofereço um possível cenário para o que pode ocorrer nos meses que se seguirão ao impeachment de Dilma Rousseff, e ao indiciamento de Lula da Silva e sua eventual prisão.

1. O PT vai perder muito de sua força, com vários de seus principais líderes presos ou na iminência de serem presos; os quadros do partido com mais senso de sobrevivência já saíram ou estão para sair do PT, migrando para partidos de centro, como o PMDB, ou de centro-esquerda ou extrema-esquerda, como o PSB, a REDE e PSOL. Somente em São Paulo, 20% dos prefeitos petistas deixaram a sigla recentemente. Por isso, candidatos petistas às eleições municipais têm trocado o tradicional vermelho por outras cores e escondido a estrela, o símbolo do partido. Para os próximos meses, o desafio da legenda será sobreviver, eleitoral e judicialmente.

2. Há uma grande possibilidade do PT ser cassado como partido político. Ou, a depender das multas que a Operação Lava Jato aplicar na legenda por causa do “Petrolão”, o PT pode ser extinto. O valor da multa pode chegar à cifra astronômica de 200 milhões de dólares. Não custa ressaltar, para não esquecer: os petistas hipertrofiaram o estado; conduziram a economia à ruína; tornaram-se sócios de empresários eleitos “campeões nacionais”; transformaram políticas sociais em máquina de caçar votos; criaram um contingente de 11,4 milhões de desempregados; as contas públicas estão em ruínas; e superlotaram os cárceres de Curitiba.

3. Com a saída do PT do governo federal e eventual cassação ou extinção da legenda, as fontes que abastecem os militantes esquerdistas profissionais “secará” drasticamente; isso vai baixar em muito a temperatura política, ainda que haja resistência residual por parte de militantes idealistas e aguerridos, para os quais ainda “não caiu a ficha” sobre o que está acontecendo, que não se veem responsáveis diretos pela grave crise que o país passa, e que vivem na fantasia histérica da operação Lava Jato ser uma “conspiração das elites conservadoras e da direita” ou até mesmo da CIA.

4. Provavelmente haverá tumultos no campo e em algumas capitais, insuflado por grupos como o MST e o MTST. Resta saber o quanto de força os governadores estão prontos a aplicar para as Polícias Militares imporem a lei a estes grupos. Estes movimentos também perderão muito do apoio financeiro com a saída do PT do governo federal, necessitando repensar suas ações para não perder os polpudos benefícios governamentais; o governo federal (PMDB) analisa propostas de retirar do MST e congêneres o poder de selecionar as famílias que serão assentadas; e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), mirando a presidência em 2018, se aproxima do MST, sancionando leis de transmissão de terras e acesso a meios de financiamento para este grupo.

5. Resta os sindicatos, que recebem metade do imposto sindical – típico exemplo do infame corporativismo estatal e sindical brasileiro. Este imposto é cobrado compulsoriamente de trabalhadores e empregadores, independentemente de sua condição de associados ou não. Isso tornou os sindicatos dependentes do Estado, representando não os interesses do trabalhador ou da classe, mas os interesses do partido, no caso, o PT. Após o impeachment de Dilma alguns sindicatos talvez façam greves, paralisações e protestos em apoio à destituída, mas nada que uma mudança na legislação não desarme: já há projeto no Senado para acabar com este imposto compulsório, o que diminuiria a força dos sindicatos.

6. Haverá oposição a um novo governo? Sim, mas esta parece que será apenas “pregação para os convertidos”, e que dificilmente seduzirá novos eleitores. Esta oposição, conduzida por representantes da esquerda e da extrema-esquerda, será virulenta, combativa, alegando que Dilma sofreu um “golpe” ou que Lula e Dilma deixaram de ser esquerda ou nunca foram a “esquerda real” – este último argumento não é novo: esquerdistas afirmam religiosamente que Lenin, Stalin, Mao Tse-Tung, Kim Jong-il, Pol-Pot, Fidel Castro, Hugo Chávez e Evo Morales também traíram os ideais da esquerda. Lula e Dilma não serão os primeiros a serem acusados de tal “pecado” contra o socialismo.

7. Membros da força-tarefa de Curitiba já disseram que a Lava Jato – que abalou pela primeira vez a cleptocracia brasileira – continuará por anos; e o vazamento das gravações de Lula em março foi “só a azeitona do Dry Martini”, como dito por um integrante da força-tarefa. Se a lei eleitoral for tomada ao pé da letra, não apenas o PT, mas também o PP e o PMDB poderão ser extintos como partidos políticos.

8. O fato de que o STF proibiu doação de empresas para campanhas eleitorais, por instigação de juristas esquerdistas, criou uma armadilha para os partidos de esquerda e extrema-esquerda. Eles pensaram que tal lei sufocaria os outros partidos, enquanto o “Petrolão” os abasteceria durante 20 anos, mantendo-os no poder de forma inconteste, por meio do marketing, do voto e da “democracia”. A decisão do STF não proíbe que pessoas físicas doem às campanhas, podendo contribuir com até 10% de seu rendimento. Mas haverá muita dificuldade por parte dos partidos esquerdistas de conseguir financiamento de pessoas físicas, por causa do novo ambiente muito crítico ao estatismo, ao coletivismo e às esquerdas em geral.

9. Parece que a próxima disputa presidencial se dará entre Aécio Neves (PSDB), José Serra (PSDB, talvez no PMDB), Geraldo Alckmin (PSDB, mas talvez no PSB), Marina Silva (REDE), Jair Bolsonaro (PSC) e, muito provavelmente, Ronaldo Caiado (DEM). Deve-se ver com ceticismo o surgimento de uma alternativa à lista de candidatos saídos do atual quadro partidário, tais como Sergio Moro, Joaquim Barbosa ou Cármen Lúcia. Para tornar o cenário incerto, o presidente da OAS, Léo Pinheiro, em suas conversas com a Procuradoria-Geral da República, citou os nomes de Dilma, Lula, Serra, Aécio e Marina em sua delação. Tudo aponta para o fato de que as delações da Odebrecht e da OAS é que determinarão os sobreviventes da política brasileira.

10. Apesar da agenda conservadora/liberal só ser representada consistentemente em apenas um partido (de 35), o NOVO, pesquisas recentes mostram que as prioridades de parcela significativa de brasileiros, quando pensam no Estado, são: combate à corrupção, fim do aparelhamento do Estado, redução de sua estrutura e corte de impostos. A REDE, que tem recebido vários políticos ligados ao PT e ao PSOL em seus quadros, tentará capitalizar o discurso da “esquerda real”, apresentando-se como um tipo de esquerda light, socialdemocrata, para tentar atrair os idealistas. Mas se ficar evidente que o discurso da REDE é estatista e coletivista, igual ao do PT, este partido não irá muito longe – como a campanha errática e etérea de Marina em 2014 evidenciou. Difícil ver como o discurso da esquerda, mesmo edulcorado pela REDE, poderá atrair uma parcela expressiva do eleitorado que clama por uma modernização e desburocratização do Estado, especialmente dos estados do sul, parte do centro-oeste e São Paulo. Por outro lado, se partidos de direita (NOVO), centro-direita (DEM, PSC) ou mesmo de centro (PMDB, PDS) enfatizarem tal discurso, pode-se ter algumas surpresas, especialmente nas votações para prefeituras e governos dos estados.

11. Estamos presenciando a maior derrota política da esquerda no Brasil desde 1922, ano da fundação do Partido Comunista Brasileiro. O mais emocionante é que esta vitória não se deu com infantes e blindados nas ruas, mas por meio da democracia e da Constituição. E esta conquista ocorreu a despeito da classe política e das oposições. Este é um triunfo do povo, que foi às ruas em protestos antigovernamentais, os maiores ocorridos na história do país, com milhões tomando as ruas em sete gigantescas manifestações ocorridas entre 2015 e 2016. Milhares de evangélicos participaram destes protestos, que abriram caminho para o impeachment de Dilma e a derrota do PT. Mas ainda há muito a ser feito, especialmente no âmbito cultural e educacional, que ainda são feudos da esquerda militante.

Mas, ao considerar o cenário religioso na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e na Rússia, em que a liberdade de expressão dos cristãos está sendo cada vez mais cerceada por políticas conectadas com a esquerda e cada vez mais autoritárias e anticristãs, e do êxodo sem precedentes de cristãos do Oriente Médio e da África, é imperativo reconhecer que o Deus todo-poderoso concede uma nova chance para a igreja evangélica no Brasil, e devemos ser muito gratos por isso. Portanto, em nome do Senhor Jesus Cristo, somos chamados a confessar mais corajosamente, a orar com mais fé, a crer com maior alegria, a amar mais apaixonadamente e a pregar fervorosamente o evangelho de Jesus Cristo, morto na cruz por nossos pecados, sepultado e ressurreto dentre os mortos para nossa salvação. Assim, supliquemos a Deus, em um tempo de novo começo: “Vem Espírito Criador!”

"Sola Fide" por J. V. Fesko


Em 1647, um grupo de pastores e teólogos reformados reunidos na Abadia de Westminster, em Londres, elaborou um conjunto de documentos que hoje conhecemos como os Padrões de Westminster, que incluem a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Os teólogos procuraram sistematizar o ensino reformado a fim de criar uma igreja Reformada unificada nas Ilhas Britânicas. Na pergunta e resposta 33 do Breve Catecismo, eles resumem um dos principais pilares da tradição reformada:

O que é a justificação? Justificação é um ato da livre graça de Deus, através da qual ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante de si, somente pela justiça de Cristo a nós imputada e recebida pela fé somente.

Incluída nesta breve declaração está a ideia de que os pecadores são justificados sola fide - somente pela fé. Mas o que significa sola fide? Antes de mergulhar em seu significado, um pouco de contexto histórico é essencial para entender a sua importância. Uma pessoa só pode apreciar verdadeiramente uma luz brilhante contra o pano de fundo da escuridão.

Um Pano de Fundo das Trevas

Quando Martinho Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, em 1517, demorou algum tempo para que as implicações da sua ação reverberassem ao longo da história. O fruto de seu trabalho emergiu em algumas confissões luteranas e reformadas, as quais afirmaram que os pecadores são declarados justos aos olhos de Deus, não com base em suas próprias boas obras, mas somente pela fé, somente em Cristo e pela graça de Deus somente - sola fide, solus Christus e sola gratia. A Igreja Católica Romana foi compelida a responder, e o fez no famoso Concílio de Trento, quando realizou uma série de pronunciamentos sobre a doutrina da justificação em sua sexta sessão, em 13 de janeiro de 1547.

Dentre os muitos pontos que Roma apresentou, vários deles reivindicações-chave, os principais foram: (1) que os pecadores são justificados pelo seu batismo, (2) que a justificação é pela fé em Cristo e pelas boas obras de uma pessoa, (3) que os pecadores não são justificados unicamente pela justiça imputada de Jesus Cristo, e (4) que uma pessoa pode perder sua posição de justificação. Todos esses pontos se fundem na seguinte declaração:

Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, ou seja, que não é necessária nenhuma outra forma de cooperação para que ele obtenha a graça da justificação e que, em nenhum sentido, é necessário que ele faça a preparação e seja eliminado por um movimento de sua própria vontade: seja anátema. (Canon IX)

A Igreja Católica Romana claramente condenou a sola fide - não confessou que os pecadores são justificados somente pela fé.

Uma Luz na Escuridão

Em contraste com esse pano de fundo, podemos apreciar como o Breve Catecismo define biblicamente a doutrina da justificação e explica o que é sola fide. Para Roma, os pecadores são justificados pela fé e obras. Sua doutrina da fé é introspectiva - uma pessoa deve olhar para dentro de suas próprias boas obras, a fim de ser justificado. O Breve Catecismo, por outro lado, argumenta que a fé é extrospectiva - os pecadores olham para fora de si, para a obra perfeita e completa de Cristo para a sua justificação. Mas o que, especificamente, os pecadores recebem somente pela fé?

O primeiro benefício da justificação é que Deus perdoa todos os nossos pecados passados, presentes e futuros. Os teólogos mencionam a citação que Paulo fez do Salmo 32: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Romanos 4:7,  Salmo 32:1). O segundo benefício da justificação é a aceitação do pecador como justo aos olhos de Deus "apenas pela justiça de Cristo imputada a nós". Ter o status de “justo” conferido a si mesmo é bastante surpreendente. Quando um juiz declara uma pessoa inocente, isso simplesmente significa que ele não é culpado de ter quebrado a lei. Mas, se um juiz declara uma pessoa justa, significa que não somente ela é inocente de violar a lei, mas também que ela cumpriu a exigência da lei. Tomemos como exemplo o roubo. Para uma pessoa ser justa nesse caso, ela deve abster-se de roubar. Mas, além disso, ela também deve proteger os bens dos outros. Ela deve atender as demandas negativas e positivas da lei contra o roubo. Por justificação, um pecador é aceito como justo, não por uma parte da lei, mas por toda a lei - cada mandamento, cada jota e til. Ele é contado como aquele que guardou todas as dimensões de toda a lei. De onde surge essa justiça?

A justiça, ou obediência, pertence a Cristo. Os teólogos citam duas passagens-chave das Escrituras para fundamentar a imputação, ou confirmação, da justiça de Cristo para o crente. Primeiro, eles citam 2 Coríntios 5:21:“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. De acordo com as Escrituras, Cristo era o Cordeiro imaculado, perfeito e sem pecado (1 Pedro 1:19; Hebreus 4:15). Ainda, Cristo carregou o pecado do seu povo - foi imputado a ele e ele o carregou. A maneira pela qual Cristo foi imputado com o nosso pecado para que ele pudesse suportar a maldição da lei (imputação) é a mesma maneira pela qual recebemos a perfeita obediência de Cristo - seu cumprimento de todas as exigências da lei. Os teólogos citam Romanos 5:19 para este efeito: “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim, pela obediência de um só homem muitos serão constituídos justos” (versão do autor). A desobediência de Adão foi imputada a todos os que estão unidos a ele, e a obediência de Cristo, o último Adão, é imputada a todos aqueles unidos a Jesus (1 Coríntios. 15:45).

Nunca os dois devem se encontrar

Se já não estiver aparente, a visão dos teólogos de Westminster sobre a justificação é diametralmente oposta à visão da Igreja Católica Romana. Para Roma, a justificação do pecador é uma tentativa de alquimia doutrinária, tentando misturar as obras de Cristo com as do crente, a fim de produzir o ouro da justificação. A teologia reformada, por outro lado, sistematizada no Breve Catecismo Menor e refletindo o ensino das Escrituras, repousa a justificação do pecador somente sobre a obra de Cristo. O único meio pelo qual a perfeita obra de Cristo é recebida é pela fé somente - sola fide. Nós não temos outra embaixada de paz para encontrar abrigo da justa ira de Deus, a não ser na perfeita justiça e sofrimento de Cristo, e não há outra ponte entre o homem e Cristo, somente a fé.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O CRISTÃO PODE FICAR OU BEIJAR SEM COMPROMISSO?


"Claudia Leitte quer mais é beijar na boca. Os Aviões do Forró não querem compromisso com ninguém, só beijar na boca sem namorar, ficar. Fernando e Sorocaba beijam mesmo, pegam mesmo e no outro dia nem se lembram. O Leonardo quer zoar e beber, locar uma van e levar a mulherada pro AP, beber e depois paragadá. Mas e o cristão que ama a Deus? Fica aí, que o vídeo de hoje vai pegar você."




"Soli Deo Gloria" por John Piper


Usamos a frase glória de Deus com tanta frequência que ela tende a perder sua força bíblica. Mas essa glória, como o sol, não é menos ardente - e não menos benéfica - porque as pessoas a ignoram. No entanto, Deus odeia ser ignorado. “Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos despedace, sem haver quem vos livre”. (Salmo 50:22). Então, vamos nos concentrar novamente na glória de Deus. O que é a glória de Deus e quão importante ela é?

O que é a glória de Deus?

A glória de Deus é a santidade de Deus colocada em exposição. Isto é, o valor infinito de Deus manifestado. Perceba como Isaías muda de “santo” para “glória”: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”. (Isaías 6:3). Quando a santidade de Deus enche a terra para que as pessoas vejam, ela chama-se glória.

O significado básico de santo é “separado do comum”. Assim sendo, a santidade de Deus é a sua infinita “separação” de tudo o que é comum. É isso que o faz ser o único infinito - como o diamante mais raro e mais perfeito do mundo - só que não existem outros deuses-diamantes. A singularidade de Deus como sendo o único Deus - Sua “Divindade” - o faz infinitamente valioso e santo.

Ao falar da glória de Deus, a Bíblia admite que este valor infinito teve sua entrada na criação. Brilhou, assim como era. A glória de Deus é o resplendor da sua santidade, a irradiação do seu valor infinito. E quando ela flui, é vista como bela e grandiosa. Ela tem tanto a qualidade de ser infinita quanto a magnitude. Desta forma, podemos definir a glória de Deus como a beleza e a grandeza da sua multiforme perfeição.

Digo “multiforme perfeição”, porque a Bíblia diz que aspectos específicos do ser de Deus contêm glória. Por exemplo, lemos sobre a “gloriosa graça” (Efésios 1:6) e “a glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:9). O próprio Deus é glorioso, pois ele é a perfeita união de todas as suas multiformes e gloriosas perfeições.

Mas esta definição deve ser qualificada. A Bíblia também fala da glória de Deus antes de ser revelada na criação. Por exemplo, Jesus orou: “e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (João 17:5). Portanto, quero sugerir a seguinte definição: A glória de Deus é o esplendor externo da beleza intrínseca e grandeza da sua multiforme perfeição.

Estou ciente de que palavras apontam para uma definição muito pobre. Eu substituí uma palavra inadequada-glória-por duas palavras inadequadas - beleza e grandeza. No entanto, Deus se revelou a nós em palavras como “a glória de Deus”. Portanto, elas não são palavras sem sentido.

Devemos constantemente nos lembrar de que estamos falando de uma glória que está além de qualquer comparação na criação. “A glória de Deus” é como designamos a beleza e a grandeza infinita da Pessoa que existia antes de qualquer coisa. Essa beleza e grandeza existem sem origem, sem comparação, sem analogia, sem serem julgadas por qualquer critério externo. A glória de Deus é definitiva, o padrão absolutamente original de grandeza e beleza. Toda a grandeza e beleza criadas vêm dela e aponta para ela, mas não podem reproduzi-la de forma adequada e em sua abrangência.

“A glória de Deus” é uma forma de dizer que há uma realidade objetiva e absoluta para a qual apontam todas as maravilhas, respeito, veneração, louvor, honra, elogio e adoração dos seres humanos. Nós fomos feitos para encontrar o nosso mais profundo prazer em admirar o infinitamente admirável - a glória de Deus. Essa glória não é a projeção psicológica do desejo humano insatisfeito sobre a realidade. Pelo contrário, o desejo inconsolável do ser humano é a evidência de que fomos feitos para a glória de Deus.

Quão central é a glória de Deus?

A glória de Deus é o objetivo de todas as coisas (1 Coríntios 10:31;Isaías 43:6-7). A grande missão da Igreja é declarar a glória de Deus entre as nações. “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas”. (Salmo 96:1-3; Ezequiel 39:21; Isaías 66:18-19).

Qual é a nossa esperança?

Nossa máxima esperança é ver a glória de Deus. “E gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Deus irá “vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Judas 24). Ele irá “conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (Romanos 9:23). Jesus, em toda a sua pessoa e obra, é a encarnação e revelação máxima da glória de Deus (João 17:24; Hebreus 1:3).

Além disso, não somente veremos a glória de Deus, mas também teremos participação, em algum sentido, em sua glória. “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada” (1 Pedro 5:1). “Aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:30). A esperança que é verdadeiramente conhecida e estimada tem um efeito decisivo sobre os nossos valores, escolhas e ações hoje.

Valorizando a Glória de Deus

Conheça a glória de Deus. Estude a glória de Deus, a glória de Cristo. Estude sua alma. Conheça as glórias pelas quais você é seduzido e porque você valoriza glórias que não são a glória de Deus.

Estude a sua própria alma para saber como fazer as glórias do mundo desmoronarem como Dagom, em pedaços miseráveis, ??no chão dos templos do mundo (1 Samuel 5:4). Tenha fome de ver e compartilhar mais da glória de Cristo, a imagem de Deus.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Solus Christus" por Joel Beeke


A teologia reformada afirma que a Escritura e sua doutrina sobre a graça e fé enfatizam que a salvação é solus Christus, “somente por Cristo”, isto é, Cristo é o único Salvador (Atos 4:12). B.B. Warfield escreveu: “O poder salvador da fé reside, portanto, não em si mesma, mas repousa no Salvador Todo Poderoso”.

A centralidade de Cristo é o fundamento da fé protestante. Martinho Lutero disse que Jesus Cristo é o “centro e a circunferência da Bíblia” — isso significa que quem ele é e o que ele fez em sua morte e ressurreição são o conteúdo fundamental da Escritura. Ulrich Zwingli disse: “Cristo é o Cabeça de todos os crentes, os quais são o seu corpo e, sem ele, o corpo está morto”.

Sem Cristo, nada podemos fazer; nele, podemos fazer todas as coisas (João 15:5; Filipenses 4:13). Somente Cristo pode trazer salvação. Paulo deixa claro em Romanos 1-2 que, embora haja uma auto-manifestação de Deus além da sua obra salvadora em Cristo, nenhuma porção de teologia natural pode unir Deus e o homem. A união com Cristo é o único caminho da salvação.

Nós precisamos urgentemente ouvir solus Christus em nossos dias de teologia pluralista. Muitas pessoas hoje questionam a crença de que a salvação é somente pela fé em Cristo. Como Carl Braaten diz, eles “estão voltando à velha e falida forma de abordagem cristológica do século XIX, do liberalismo protestante, e chamando-a de “nova”, quando, na verdade, é pouco mais que uma “Jesusologia” superficial”. O resultado final é que, atualmente, muitas pessoas, como H.R. Niebuhr disse em sua famosa frase a respeito do liberalismo — proclamam e adoram “um  Deus sem ira, o qual trouxe homens sem pecado para um reino sem julgamento por meio de ministrações de um Cristo sem a cruz”.

Nossos antepassados reformados, aproveitando uma perspectiva que rastreia todo o caminho de volta aos escritos de Eusébio de Cesaréia, no século IV, acharam útil pensar a respeito de Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei. A Confissão Batista de Londres de 1689, por exemplo, coloca isso da seguinte forma: “Cristo, e somente Cristo, está apto a ser o mediador entre Deus e o homem. Ele é o profeta, sacerdote e rei da igreja de Deus” (8.9). Observemos mais detalhadamente esses três ofícios.

Cristo, o Profeta

Cristo é o Profeta que precisamos para nos instruir nas coisas de Deus, a fim de curar a nossa cegueira e ignorância. O Catecismo de Heidelberg o chama de “nosso principal Profeta e Mestre, que nos revelou totalmente o conselho secreto e a vontade de Deus a respeito da nossa redenção” (A. 31). “O Senhor, teu Deus”, Moisés declarou em Deuteronômio 18:15, “te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás”. Ele é o Filho de Deus, e Deus exige que nós o escutemos (Mateus 17:5).

Como o Profeta, Jesus é o único que pode revelar o que Deus tem planejado na história “desde a fundação do mundo”, e que pode ensinar e manifestar o real significado das “escrituras dos profetas” (o Antigo Testamento, ver Romanos 16:25-26). Podemos esperar progredir em nossa vida cristã apenas se dermos ouvidos à sua instrução e ensino.

Cristo, o Sacerdote

Cristo é também o Sacerdote—nosso extremamente necessário Sumo Sacerdote que, como diz o Catecismo de Heidelberg: “pelo sacrifício de Seu corpo, nos redimiu, e faz contínua intercessão junto ao Pai por nós” (A. 31). Nas palavras da Confissão Batista de Londres de 1689 “por causa do nosso afastamento de Deus e da imperfeição de nossos melhores serviços, precisamos de seu ofício sacerdotal para nos reconciliar com Deus e nos tornar aceitáveis por ele” (8.10).

A salvação está somente em Jesus Cristo, porque há duas condições que, não importa o quanto nos esforcemos, nunca poderemos satisfazer. No entanto, elas devem ser cumpridas se estamos para ser salvos. A primeira é satisfazer a justiça de Deus pela obediência à lei. A segunda é pagar o preço de nossos pecados. Nós não podemos cumprir nenhuma dessas condições, mas Cristo as cumpriu perfeitamente. Romanos 5:19 diz: “ por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Romanos 5:10 diz: “nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”. Não há outra maneira de entrar na presença de Deus a não ser por meio de Cristo somente.

O sacrifício de Jesus ocorreu apenas uma vez, mas ele ainda continua sendo nosso grande Sumo Sacerdote, aquele através do qual toda a oração e louvor são feitos aceitáveis a Deus. Nos lugares celestiais, ele continua sendo nosso constante Intercessor e Advogado (Romanos 8:34; 1 João 2:1). Não é de se admirar, então, que Paulo diz que a glória deve ser dada a Deus “por meio de Jesus Cristo pelos séculos dos séculos” (Romanos 16:27). O gozo de achegarmo-nos a Deus pode crescer apenas por uma confiança profunda nele como nosso sacrifício e intercessor.

Cristo, o Rei

Finalmente, Cristo é o Rei, que reina sobre todas as coisas. Ele reina sobre sua Igreja por meio de seu Espírito Santo (Atos 2:30-33). Ele soberanamente dá o arrependimento ao impenitente e concede perdão ao culpado (Atos 5:31). Cristo é “o nosso Rei eterno que nos governa por sua Palavra e Espírito, e que defende e preserva-nos no gozo da salvação que ele adquiriu para nós” (O Catecismo de Heidelberg, P&R.31). Como o Herdeiro real da nova criação, ele nos levará a um reino de eterna luz e amor.

Neste sentido, podemos concordar com João Calvino quando ele diz: “Nós podemos passar pacientemente por esta vida com sua miséria, frieza, desprezo, injúrias e outros problemas—satisfeitos com uma coisa: que o nosso Rei nunca nos deixará desamparados, mas suprirá as nossas necessidades, até que, ao terminar nossa luta, sejamos chamados para o triunfo”. Podemos crescer na vida cristã apenas se vivermos obedientemente sob o domínio de Cristo e pelo seu poder.

Se você é um filho de Deus, Cristo em seu tríplice ofício como Profeta, Sacerdote e Rei significará tudo para você. Você ama solus Christus? Você o ama em sua pessoa, ofícios, naturezas e benefícios? Ele é o seu Profeta para ensinar-lhe; o seu Sacerdote para sacrificar e interceder por você e lhe abençoar, e o seu Rei para governá-lo e guiá-lo?

Depois de uma execução empolgante da Nona Sinfonia de Beethoven, o famoso maestro italiano Arturo Toscanini disse à orquestra: “Eu não sou nada. Você não é nada. Beethoven é tudo”. Se Toscanini pode dizer isso sobre um compositor brilhante, mas que está morto, quanto mais os cristãos devem dizer o mesmo sobre o Salvador que vive, o qual, no que diz respeito à nossa salvação, é o compositor, músico e até mesmo a própria bela música.

domingo, 28 de agosto de 2016

"O que é e o que não é fé?" por Guy Richard


“Eu creio; eu creio. É bobo, mas eu creio”. Essas são palavras bem conhecidas ditas pela jovem Susan Walker no famoso filme de natal De Ilusão Também se Vive (1947). Eles fornecem um simples exemplo de como a fé é comumente retratada em nossa cultura: um salto às cegas no escuro — crendo sem qualquer razão.

Tal visão da fé, contudo, é completamente divergente do que a Bíblia ensina. Fé, de acordo com a Bíblia, não é irracional ou “boba”. Não é um comprometimento cego ou um sentimento arbitrário de proximidade com Deus. Essas coisas não são fé, do mesmo modo que não é fé um homem escolher, de olhos vendados, uma pessoa em meio a uma multidão, e pedir a ela que lhe faça uma cirurgia cardíaca. Isso não é fé de maneira alguma; é tolice, pura e simples.

O que, então, é fé? Historicamente, o cristianismo ortodoxo respondeu essa a questão distinguindo três principais elementos que, juntos, compreendem a fé salvífica. Falando de maneira geral, três palavras latinas foram usadas para identificar esses três elementos: notitia, ou “conhecimento”; assensus, ou “assentimento”; e fiducia, ou “confiança”.

Notitia

O primeiro elemento da fé salvífica é notitia, ou conhecimento, que aponta para o fato de que a fé genuína deve crer em alguma coisa. Em outras palavras, ela deve ter conteúdo intelectual. Ela não pode ser vazia ou cega, mas deve ser baseada no conhecimento de certas verdades fundamentais. Nós vemos isso por toda a Bíblia nas passagens que são distintas pela expressão “crer que”, seguida por uma proposição doutrinária de alguma natureza. Bons exemplos incluem Romanos 10.9, que afirma que “se... creres que Deus ressuscitou [Jesus] dentre os mortos, serás salvo”, e João 20.31 que diz: “Estes [sinais] foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Em cada caso, nós vemos que há um conteúdo doutrinário para a fé. Fé significa crer em certas proposições; nos exemplos citados acima, as proposições são “que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos” e “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.

Assensus

O segundo elemento da fé salvífica é assensus, ou consentimento; parecer favorável. Isso se refere à convicção intelectual de que o conhecimento que alguém possui é factualmente verdadeiro e pessoalmente benéfico. Não é suficiente simplesmente conhecer certas coisas. Devemos também crer que tais coisas são verdadeiras e atendem às nossas necessidades. Nós vemos esse elemento de fé retratado em passagens bíblicas como João 5.46-47; 8.31-38, 45-46; 10.37-38; 14.11.

Fiducia

O terceiro elemento da fé salvífica é fiducia, ou confiança. É de longe o mais importante dos três elementos que mencionamos. Sem esse elemento, a fé é meramente um empreendimento intelectual — muito parecida com a “fé” dos demônios que sabem a verdade sobre Jesus, mas se recusam a confiar nele porque odeiam o que eles sabem ser verdadeiro (Tg 2.19; Mt 8.29). Esse elemento consiste em uma confiança pessoal em Cristo como ele é oferecido no evangelho, e uma completa confiança nele para a salvação. Ele é visto em passagens que falam sobre crer “em” Jesus (por exemplo, Jo 3.15-16; Rm 9.33; 10.11) e em passagens que falam de “inclinar-se” ou “repousar” sobre Jesus (Sl 71.5-6; Pv 3.5-6), “olhar” para ele (Jo 6.40; Hb 12.1-2), e “comprometer-se” com ele (2Tm 1.12; Mt 11.28; Sl 37.5).

Os três elementos ilustrados

Considere a seguinte ilustração. Imagine que quatro pessoas são lançadas sem comida ou água no meio de um campo muito extenso cheio de minas terrestres. Suponha que um dos indivíduos cegamente escolha um caminho pelo campo e siga naquela direção sem hesitar. Esse não é um exemplo de fé, mas é mais como aquela tolice da qual falamos anteriormente. Fé genuína não é cega; é baseada em conhecimento.

Mas suponha que um helicóptero apareça sobre os três homens que restaram, e do helicóptero, uma parte interessada anuncia o caminho pelo campo minado. Um dos homens confia na palavra da parte interessada e caminha de uma vez pelo campo minado. Isso também não é um exemplo de fé. Sim, as ações do homem são baseadas em conhecimento (o testemunho da parte interessada) e consentimento (o homem considera o testemunho como verdadeiro e benéfico em atender as suas necessidades). Mas a sua ação ainda é cega, pois é baseada em conhecimento insuficiente (isto é, o testemunho incerto de um completo estranho). Ela também carece do mais importante elemento da fé: confiança pessoal naquele que fala.

Suponha, contudo, que os dois homens restantes façam certas perguntas à parte interessada para discernir como ele veio a conhecer o caminho correto do campo, por que ele quer ajudá-los e o quão certo ele está de que pode guiá-los seguramente através das minas terrestres. Suponha que eles também peçam referências da parte interessada para ver se ele conhece alguém que eles conheçam ou a quem sejam relacionados. Suponha que eles até mesmo tentem testar as suas instruções, lançando objetos na direção que ele sugere para ver se parece estar livre de minas. Ao fazer tais coisas, os dois homens restantes estão reunindo conhecimento suficiente para decidir se podem confiar no indivíduo do helicóptero. Essa confiança (fiducia), que é edificada sobre um conhecimento (notitia) e consentimento a tal conhecimento (assentus), é do que se trata a fé. Tal fé não é “boba” de maneira nenhuma, mas completamente razoável.

Fé demonstrada em obras

Quando todos os três elementos da fé estão presentes, eles necessariamente se manifestarão em boas obras. Se considerarmos a ilustração acima, podemos ver que os dois homens restantes demonstram a genuinidade da sua fé (ou a falta dela) por aquilo que eles fazem. Se eles escolhem ficar onde estão e se recusam a seguir instruções do homem no helicóptero, ou se eles seguem em sua própria direção, eles demonstrarão que não creem de verdade. Mas se eles genuinamente confiam no homem no helicóptero, eles seguirão na direção para a qual ele aponta. Eles seguirão suas instruções (à la João 14.15). As suas ações vão demonstrar a genuinidade de sua fé.

Quando notitia, assensus e fiducia estão presentes juntos, há verdadeira fé. E quando há verdadeira fé, boas obras necessariamente seguirão. Boas obras não são parte da fé; elas fluem da fé. É somente a fé que recebe o dom de Deus da justificação, mas fé que justifica nunca estará sozinha; ela sempre se manifestará em boas obras.

sábado, 27 de agosto de 2016

"Sua Exegese Tem Consequências Eternas" por Anthony Carter


Ideias têm consequências. Desde o alvorecer da filosofia ocidental, temos testemunhado o lado bom e o lado ruim desse axioma. Da influência de John Locke sobre os fundadores da América até os resultados desastrosos da influência de Karl Marx na Rússia Comunista e de Friedrich Nietzsche na Alemanha de Hitler, dificilmente se pode argumentar que ideias não têm consequências. Contudo, não só ideias têm consequências, mas o mesmo acontece com a exegese.

O perigo da interpretação errônea da Escritura não é novo em nossos dias. O apóstolo Paulo instruiu o jovem Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Existe uma maneira correta e uma maneira errada de se manejar a Palavra de Deus. Infelizmente, em nossa época, há muitos que podem encontrar-se envergonhados por terem manejado mal a palavra da verdade.

Tome, por exemplo, Marcos 16.17-18:

“Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.”

Embora a autenticidade dessa passagem seja questão de debate, alguns têm tomado essas palavras e as têm usado para justificar a prática de, literalmente, segurarem serpentes mortíferas no meio da congregação como demonstração de fidelidade. Tragicamente, muitos têm morrido de mordidas de cobras como resultado. Exegese tem consequências.

Considere outro texto bem conhecido da Escritura que, quando mal manejado e aplicado de maneira errada, também tem levado a resultados trágicos:

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tg 5.14-15).

O estímulo para chamar os presbíteros para que orem pelo enfermo tem levado alguns a entenderem Tiago de forma errada, como se ele estivesse proibindo o uso de médicos ou práticas médicas. Infelizmente, tenho conhecido famílias que, desnecessariamente, perderam entes queridos para enfermidades e doenças que eram facilmente curáveis se tão somente tivessem contado com a ajuda de um médico ou utilizado práticas médicas comprovadas cientificamente. É uma pena que a interpretação e a aplicação errônea desse texto os tenha levado a crer que buscar tal ajuda significaria ser desobediente a Deus. Novamente, exegese tem consequências.

Enquanto interpretar de forma errada a Escritura pode prolongar desnecessariamente a enfermidade e até resultar em morte física, o maior perigo está naquilo que ela pode fazer à alma. Através da exegese errada, pessoas podem e têm sido levadas à morte eterna.

Há alguns anos atrás, um pastor carismático famoso nos Estados Unidos determinou que Deus havia dado a ele a revelação de que a Bíblia ensina que Jesus morreu para salvar todos os seres humanos, sem exceção. O pastor começou ensinando o universalismo, uma heresia que afirma que nenhuma pessoa se perderá na eternidade, quer se arrependam nesta vida ou não. Armado com essa ideia, ele foi às Escrituras e começou a reinterpretar, refazer a exegese e reaplicar muitos textos que ele havia ensinado anteriormente. Por exemplo, 1 Timóteo 4.9-10 diz: “Temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”. A partir dessa passagem, o pastor sugeriu que o plano de Deus é salvar todo ser humano, e não somente aqueles que creem nele.

Em uma entrevista, quando questionado sobre aqueles que deliberadamente pecam, rejeitam a Cristo e morrem impenitentes, o pastor foi a Filipenses 2.10-11: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”. Através da interpretação e  aplicação erradas, esse pastor sugeriu que Paulo ensina que todos reconhecerão e aceitarão Jesus antes de morrerem ou depois. Ele afirmou: “Mesmo na vida após a morte alguns receberão a revelação de Jesus e serão inspirados pelo Espírito Santo para confessar seu senhorio”.

 É desnecessário dizer que as consequências para essa interpretação e sua aplicação são desconcertantes. Não só a pregação do evangelho é inutilizada, mas o sofrimento pelo qual os apóstolos e a igreja passaram para pregar o evangelho foi em vão (Gl 3.4). Não existe ideia mais perigosa e prejudicial do que a ideia de que homens e mulheres não precisam ouvir o evangelho, se arrepender dos seus pecados e crer em Cristo para serem salvos. Exegese tem consequências. Algumas exegeses têm consequências eternamente desastrosas.

Todavia, assim como a exegese ruim tem consequências eternamente condenatórias, a exegese fiel tem consequências eternamente recompensadoras. 2 Timóteo 2.15 nos encoraja dizendo que aqueles que manejam bem a palavra da verdade não têm do que se envergonhar diante de Deus. Eles não se encolherão de vergonha quando apresentarem suas obras a Deus.

Portanto, se somos fiéis, então nós, assim como Paulo, buscamos manejar a palavra de Deus não enganosamente, mas com integridade e responsabilidade diante de Deus e de todos aqueles que a ouvem (2Co 4.2). Não devemos ser mercadores ou corruptores da Palavra de Deus (2Co 2.17). Ao contrário, pregamos Cristo e a fé nele. Devemos sempre lembrar que a nossa exegese tem consequências.

Fonte: Fiel
 
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